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    October 14

    Big Bang de proveta

     

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    Marcos Vinícius– 3 de outubro de 2008

     

    São Tomás de Aquino, em sua Súmula contra os gentios afirma categoricamente que as verdades da razão natural não contradizem as verdades da fé cristã. Segundo o teólogo, “Deus não pode infundir no homem opiniões ou uma fé que vão contra os dados do conhecimento adquirido pela razão”; mas essa afirmação, pautada no princípio de autoridade, que recorre aos textos de São Paulo, na Epístola aos romanos, e a interpretação agostiniana da Gênese, está longe de resolver o diálogo ontológico e histórico estabelecido entre a ciência e a fé, que refere-se diretamente a estrutura do homem enquanto ser dilacerado pela imanência de seu corpo, onde habita a transcendência de seus sentimentos e reflexões. Kafka apresenta bem essa situação de dilaceramento em um de seus aforismos:

     

    Ele é um cidadão da terra, livre e seguro, pois está ligado a uma corrente suficientemente longa para fazer com que todas as áreas lhe sejam acessíveis sem restrições e, no entanto, longa apenas na medida em que nada pode forçá-lo a ir além dos confins da terra. Ao mesmo tempo, porém, ele é um livre e seguro cidadão do céu, ao qual de modo semelhante também está ligado por uma corrente calculada. Se deseja descer à terra, é sufocado pela corrente celeste presa ao seu pescoço, como uma coleira; se deseja elevar-se ao céu, é sufocado pela corrente terrena. E, não obstante, tem ele todas as possibilidades e assim o sente; na verdade, ele se recusa até a explicar todo o conjunto como um erro no acorrentamento original. (Franz Kafka)

     

    Aristóteles, diz que o desejo de conhecer nasce do espanto do homem em relação ao mundo, dessa intuição avassaladora que algo ultrapassa infinitamente nossa individualidade. E por essa necessidade tipicamente humana de apreender esse infinito, e encontrar a causa do movimento das coisas, os homens criaram deuses, cachaça, fórmulas matemáticas, obras de arte, livros de mil e seiscentas páginas, e religiões de todo tipo. A princípio, os homens contentaram-se em contemplar a realidade, sua beleza e dignidade. No ocidente, a expressão maior dessa estrutura de manejo da realidade, está na Grécia, com os primeiros filósofos, àqueles que convencionalmente chamamos de pré-socráticos. Esses pensadores viveram imersos na angústia da percepção intuitiva do Absoluto, e na incapacidade de pronunciar um discurso lógico que refletisse exatamente aquilo que os devorava. A esse respeito diz Nietzsche, ao comentar os fragmentos de Tales de Mileto:

     

    O que é o verso para o poeta, aqui é para o filósofo o pensar dialético: é deste que ele lança mão para fixar-se em seu enfeitiçamento, para petrificá-lo. E assim como, para o dramaturgo, palavra e verso são apenas o balbucio em uma língua estrangeira, para dizer nela o que viveu e contemplou e que, diretamente, só pode anunciar pelos gestos e pela música, assim a expressão daquela intuição filosófica profunda pela dialética e pela reflexão científica é, decerto, por um lado, o único meio de comunicar o contemplado, mas um meio raquítico, no fundo uma transposição metafórica, totalmente infiel, em uma esfera e língua diferentes. Assim contemplou Tales a unidade de tudo o que é: e quando quis comunicar-se, falou da água!(Nietzsche)    

     

    Essa impossibilidade de lidar com o Absoluto obriga muitos pensadores em várias culturas, a adotar uma via negativa de relação com o todo. O místico é justamente aquele que não afirma positivamente algo sobre o Absoluto, mas aproxima-se dele mostrando aquilo que Ele não é, pois reconhece a própria pequinês diante do Universo, e os limites impostos por nossa finitude. Assim  diz o poeta Rumi, “O que quer que pensem de nós/ em nada parecerá ao que somos” ou ainda, “Silêncio!/ És feito de pensamento, afeto e paixão/ O que resta é nada/além de carne e ossos”.

     

    Rumi reconhece o limite do discurso racional e se participamos do divino é por meio da intuição sensível, pelo amor ao Absoluto: “Prisioneiros não somos/ do tempo nem do espaço/nem mesmo da terra que pisamos. / No amor fomos gerados, /No amor nascemos.”

     

    O pensador Iluminista Kant, advertiu que a razão não pode lidar com o Eterno, e que apenas possuímos uma representação finita da realidade, imposta pela estrutura própria do pensamento, mas jamais alcançaremos à realidade enquanto tal. A razão não pode penetrar no Absoluto. Mas ao que parece, a advertência desse pensador não afetou os homens de Ciência.

     

    O desejo (o eterno insatisfeito) de apreender a realidade através da razão é um libertino desvairado que se confunde com a própria noção de humanidade. Isso pode ser muito bem ilustrado pela representação da tradição religiosa e mitológica: Adão e Eva não se deram por satisfeitos com o Paraíso, Psique não se contentou  em amar Eros sem lhe ver o rosto, apesar de todas as advertências do deus a mortal... Em ambos os casos, as personagens sentem-se tragadas à dimensão humana estrutural do transcender, dessa forma, têm a necessidade de repelir a inércia das coisas que já possuem e conhecem.   

     

    O homem de razão é o desejo de conhecer e dominar a natureza. Como um jovem adolescente obcecado pela paixão, é capaz de subjugar qualquer obstáculo a fim de desposar sua amada. E não lhe basta contempla-la, meio que à distância, não para quieto em sua cadeira no teatro da vida, não consegue apenas contemplar o espetáculo; é necessário possuir, tocar, despir a realidade integralmente, como o amante despoja sua amada das vestes na penumbra do quarto. Mas ao contrário da mulher de carne macia, perfumada e de unhas pintadas, que muitas vezes mostra-se por vontade própria, a realidade nunca se apresenta toda nua; há sempre uma outra veste submersa, àquela veste jogada ao pé da cama.

     

    Eis, portanto, o espetáculo da ciência: um bando de homens de jaleco branco, trancafiados no bordel da razão, eternamente fadados a apreciar um striptease que nunca se completa. Catam tal qual mendigos os véus que a realidade lhes fornece, discutem entre si sobre os detalhes da roupa, sorvem-lhe o perfume, alisam a textura do tecido, alguns chegam até a vesti-la para imitar os passos da dançarina, enquanto outros, de prancheta na mão - observam, criam hipóteses, refutam e argumentam, pronunciam conclusões eloqüentes; mas de repente, um deles lhes adverte que o show continua - e no palco, a garota misteriosa ainda está vestida - dança e ri com cinismo.

     

    Esse grandioso experimento da atualidade, que sonda as origens do Universo, é só mais uma tentativa frustrada de despir a realidade completamente. E mesmo que suas descobertas possam propiciar avanços tecnológicos significativos, em diversas áreas da ciência, não revelará nada além de um simulacro sobre o outro simulacro. Ah, se um matuto das nossas bandas topasse com um desses pesquisadores...

     

    O mineirinho, sistemático e desconfiado ouviria quieto e atentamente as frases cheias de Relatividade e Cosmologia costurar o monólogo do sabido cientista. E depois que o motorista de jaleco branco, que debréa, engata, acelera e freia partículas subatômicas, entre outros nobres e obscuros rituais, terminasse sua extravagante palestra, o mineirinho - que tinha pressa, porque tinha de tratar das criação – soltaria um trago de seu fiel paierinho, antes de dizer:

     

    - Rá... O buraco é bem mais pra baixo, seu Dôtor!

     

    Não podemos negar, no entanto, que Fé e Razão, apesar de seguirem caminhos aparentemente distintos, partem do mesmo lugar, da necessidade do homem relacionar-se com o Absoluto, enquanto instrumento de amparo que permite ao indivíduo lidar com os desafios da vida concreta e cotidiana, de maneira mais segura. Se ao longo do percurso atritam e distancia-se é única e exclusivamente pelo dogmatismo dos soldados entrincheirados de ambos os lados, advogando para si a posse do verdadeiro saber.

     

    E talvez, no pequeno fragmento desse evangelho apócrifo, atribuído a Maria Madalena, em que ela relata a conversa que teve com Cristo após a ressurreição, esteja uma abertura que poderia, não resolver a questão - é evidente,  mas pelo menos nos fazer refletir um pouco a respeito: “Eu (Maria Madalena) lhe disse: 'Mestre, aquele que tem uma visão vê com a alma ou como espírito?' Jesus respondeu e disse: ‘Não vê nem com a alma nem com o espírito, mas com a consciência, que está entre ambos - assim é que tem a visão.”

     

    A palavra alma aqui deve ser interpretada no sentido de sentimento, de fé. Alma, etimologicamente é aquilo que anima o corpo, e possui a mesma raiz que a palavra animal. Portanto, alma pode ser interpretado como instinto, intuição, paixão, fé.

     

    O termo espírito etimologicamente liga-se ao verbo “soprar”, “respirar”, que nos remete a algo mais etéreo, mais abstrato, como intelecto, raciocínio e inteligência.

     

    Desta forma, seguindo na nossa interpretação, podemos extrair desse fragmento que nem a intuição proporcionada pela fé, e nem o intelecto – isolados entre si - podem proporcionar o “ver”. Diz Jesus: “Não vê nem com a alma nem com o espírito, mas com a consciência, que está entre ambos”.   

     

    Esta palavra, consciência, é constituída de um sufixo, ciência, que não se confunde com as disciplinas científicas; na sua origem ciência  refere-se à espisteme que quer dizer Verdade, conhecimento verdadeiro que é diferente de doxa, opinião ou  conhecimento vulgar. Ao sufixo ciência é acrescida o prefixo, com, que quer dizer, junto a. Portanto, consciência significa “junto à Verdade”, “estar na Verdade”, “ser junto à Verdade”.

     

    Maria Madalena só viu Jesus, porque estava junto à Verdade; não foi apenas por sua fé, nem por sua inteligência. Mas por permanecer num estado paradoxal e limítrofe onde fé e razão confundem-se e ao mesmo tempo distinguem-se.

     

    Afirmando que ciência e fé dialogam - e que partem de uma mesma necessidade humana - extraímos necessariamente, a noção de que compartilham o modo de expressão, o meio de comunicação, que se entendem (não no sentido de concordarem, mas no sentido de se comunicarem) e anseiam a mesma finalidade – apaziguar os demônios internos do homem concreto, e fortalecer o indivíduo na árdua tarefa da conquista da liberdade e da prática da tolerância. E se por ventura a hiper-especialização desenfreada das ciências em campos particulares - fragmentação do saber científico - tem desviado o verdadeiro caminho da ciência do comprometimento para neutralidade; e que a ortodoxia das instituições religiosas não tem cedido às questões impostas pela contemporaneidade, como capitalismo de mercado e a globalização e suas mazelas - não podemos dizer que há de fato um diálogo entre ciência e fé.

     

    Contudo, não se trata de efetuar uma síntese teórica, ou atingir um meio-termo epistemológico; mas de uma conscientização: entender esse estar junto à Verdade como um movimento perpétuo a - abertura a possibilidade da Verdade, assim podemos falar de diálogo, caso contrário, não passa de mera disputa teórica, ou de apropriação do modismo “Holístico”.

     

    Tanto ciência como fé objetivam apenas melhorar a vida das pessoas comuns, pelo menos era essa a idéia, se não for para isso, ambas se tornam obsoletas. No Evangelho de Lucas encontramos uma passagem valiosa, que da na nossa perspectiva de interpretação, fornece uma possibilidade singular:

     

    “ Muito povo  acompanhava  Jesus.  Voltando-se,  disse-lhes:

    ‘Se alguém vem a mim, e não odeia seu pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos, suas irmãs, até a sua própria vida, não pode ser meu discípulo’  ”.  (Lucas 14, 25-26)

     

    Jesus é à Verdade encarnada, e só poderia ser discípulo da Verdade aquele que abandonasse os interesses pessoais e a vaidade pessoal, entregando-se enquanto indivíduo solitário a conquista da liberdade e da responsabilidade por si mesmo: eis o maior de todos os deveres – a cruz que temos que carregar.

     

    “Amei o senhor o teu Deus acima de todas as coisas e teu próximo como a ti mesmo”, disse Jesus.

     

    Tanto ciência quanto a fé, abrem a possibilidade de  melhoramento do indivíduo concreto, através do ajuntar-se à Verdade – “Amei o senhor o teu Deus (Absoluto) acima de todas as coisas”. O apostulado dessa mesma Verdade é, portanto assumir a liberdade e a responsabilidade enquanto indivíduos perante nós mesmo, que não deve ser entendida no sentido de egoísmo ou individualismo, mas justamente no sentido de que nos fala Sartre:

     

    Escolher ser isto ou aquilo é afirmar, concomitantemente, o valor do que estamos escolhendo, pois não podemos nunca escolher o mal; o que escolhemos é sempre o bem e nada pode ser bom para nós sem o ser para todos. (...) Portanto, a nossa responsabilidade é muito maior do que poderíamos supor, pois ela engaja a humanidade inteira. Sou, desse modo, responsável por mim mesmo e por todos e crio determinada imagem do homem por mim mesmo escolhido; por outras palavras: escolhendo-me, escolho o homem. (Sartre)

     

    Ao dizer que somos responsáveis, não apenas por nos mesmos, mas pelo homem, Sartre que dizer exatamente o que Kant disse anos antes - que ao realizarmos uma escolha devemos pensar: “E se todos agissem como eu? Se todos fossem indiferentes?” Ora, isso não é outra coisa senão o “amar o próximo como a ti mesmo”.  

     

    Os homens da fé e da ciência deveriam antes de ligar-se a debates acadêmicos, refletir sobre essas questões. E nesse sentindo que o matuto, em toda a sua simplicidade diz:  

     

    - Rá... O buraco é bem mais pra baixo, seu Dôtor!

     

     

    Aliás, o pessoal sempre encena a morte e paixão de Cristo, com vestes, leituras e procissões (tem gente que nem come carne); porque não deixar os cientistas encenarem o Natal do Universo?

     

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