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August 13 Manual de auto-sobrevivência contemporâneaParte 3
A merda toda começou da maneira mais besta possível. Em um baile de Hallowen do segundo grau, eu nem estava mais no segundo grau, mas estava na festa. Parece até comédia romântica da tela quente, mas não é. Me fantasiei de televisão, colocando uma caixa de papelão coberta por papel preto na cabeça. A tela era uma radiografia do pulmão da minha mãe, que fuma demais, e por isso eu enxergava pouco do lado de dentro e quase ninguém me reconhecia do lado de fora. Se ela me permite a gafe, não me lembro a fantasia que usava, acho que era uma espécie de fada do mal, ou Elfo fêmea, realmente não me lembro. O que importa mesmo, é que quando estávamos sozinhos; exceto, apenas por meu irmão vestido de homem bomba que quase explodia sobre uma amiga dela vestida de bruxa - quando era hora de beijar, e como eu sou um pouco mais velho que ela, e na época não poderia ser diferente, tasquei-lhe a mão na bunda. Algo normal para mim; não para ela. - O que é isso menino? – ela retrucou enquanto se afastava e freneticamente apontava sua varinha mágica pra mim. Temi por um feitiço, tamanho o susto. - O que é isso, digo eu menina... - Eu não sou dessas, viu... (o discurso todo ensaiado) Tá pensando o quê? Que eu sou dessas menininhas que você tá acostumado a pegar por aí? Heim? Pensou errado – e jogou o cabelo trás, girou o tronco e parou de braços cruzados batendo o pé direito no chão. - Uai... Não fiz nada demais... – eu realmente estava confuso. - Aff... – e virou o rosto para rua. Inclinei o corpo, estendi os braços devagar e trouxe-a para perto novamente, sem resistência, aliás. - Não gostou do beijo? – eu perguntei com ar sedutor. - Não gostei foi da mão... – disse no ar de cinismo emburrado e dissimulado que só ela tem. - De mãos pra trás, então... – eu disse próximo da boca dela. - Então tá... – riu e me beijou. August 09 Manual de auto-sobrevivência contemporâneaParte 2
Rodo a chave no interior da fresta por duas vezes. Forço estupidamente a maçaneta da porta para me certificar de que está definitivamente trancada. Abandono à chave na escrivaninha antes de me sentar na cama. - Me espera, eu já estou acertando as coisas - foi o que ela disse enquanto eu procurava por um cigarro no bolso. Que tipo de idiota aceita uma situação dessas? Eu, é claro. O menino de orelhas grandes que senta no fundo da sala. Que fala coisas agradáveis quando alguém reclama da vida. Que liga antes que ela ligue. Que diz o que pensa e que acaba enfiando os pés pelas mãos com uma facilidade tão grande que isso nem faz tanta diferença assim. Estico a mão e aperto play no mp3 conectado à caixa do meu contrabaixo. Ajusto o volume para não incomodar ninguém na casa. Que inveja eu tenho do homem invisível. Num momento desses estaria andando bêbado por banheiros femininos de um monastério. Seria muito divertido, aliás. - Você vai esperar? – ela diz ao mesmo tempo em que me olha nos olhos com certo tom de sinceridade, tentado me fazer pensar a história toda como a melhor coisa que tenha acontecido na humanidade desde a bomba atômica. - E que mais eu poderia fazer? Não estou em condições de exigir nada...- eu respondo antes de acender o cigarro. O volume da caixa está com mau contato. Um chiado repentino aparece cada vez que tento encontrar a regulagem perfeita, o que me força a deixar a música um pouco baixa demais. - Vai esperar mesmo? – ela insiste. - Sim... - De verdade? - De verdade... Mas você pelo menos poderia tirar essa aliança de compromisso quando estiver comigo. Abandono meu corpo na cama e fico pensando em cenas de filmes de David Lynch. Depois em idiotices que disse quando estava bêbado. Até não pensar em nada específico. - Eu te odeio, sabia – ela diz antes de bater o pé direito sutilmente no chão. - Eu também te amo... Ela ri e fica me olhando com uma cara idiota, igual criança pequena quando vê algodão doce pela primeira vez. August 05 Manual de auto-sobrevivência contemporâneaParte 1 Sou muito displicente. Já tem um bom tempo que não escrevo um texto que tenha um sentido objetivo. Fico apenas colocando para fora as giletes que lixam meus ossos quando ando de casa para o trabalho. E definitivamente não sou um bom cirurgião. A cada lâmina extirpada, uma nova necrose incha sob a pele, e depois de cristalizada volta cautelosamente a roer minhas juntas de modo mais sorrateiro. Não precisava de tantas metáforas, é verdade, mas o fato de não escrever regularmente desespera-me à forma de tortura chinesa. Isso acontece, em primeiro lugar, porque tenho verdadeiro prazer em escrever. Quase uma tara. Ficou eufórico, entorpecido, exaltado, mas também fico calmo, relaxado e prudente. Fico mais vivo, para ser exato. O outro motivo - exatamente oposto ao primeiro - é que, ao escrever, dissipo-me no texto. Não sou eu atrás do teclado. Não são meus dedos patinando nas teclas. Nem minha voz de fantasma ditando as palavras na minha cabeça. Não há limite. Nem nitidez. Eu não existo naquele momento. Escrever é uma maneira singular de deixar a existência de lado. Escrever é morrer, e depois renascer. Todo escritor enfrenta essa nadeza. Para criar é preciso estar vazio, solitário, em silêncio para o mundo; definitivamente, abandonado e desprendido. É mais que necessário deixar de ser você mesmo, largar os fardos no alpendre de casa. Esquecer as virtudes, e principalmente a vaidade. Não há depois, porque no momento da escrita, a própria escrita é intocável, um espectro, apenas. A escrita é, para mim, questão de sobrevivência. Existo dessa maneira, da melhor maneira possível e, através dela, deixo de existir para sobreviver.
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