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November 04 Coelhos e Tambores
Não acredito que as coisas tenham começado em algum momento. Como se apertassem start e pronto: o rolo compressor disparou ladeira a baixo. A realidade não tem gasolina ( ou hidrogênio, tanto faz). Essa coisa sempre esteve por aqui. É complicado esse trem: afinal de contas é a gente mesmo que está aqui; e o que importa é o despertador amanhã cedo, agüentar amolação de serviço e ler os textos da faculdade. Enfim, também não acho que o trem vai indo numa ascensão infinita, ou tenhamos um juízo final. A coisa sempre esteve por todos os lados. Esse negócio de Deus tirar um coelho da cartola é um truque meio barato: - o rapaz, calma aí que a coisa não é por aí, não! Por isso que eu estou mais com os hindus – o trem é replay mesmo. Bate um tambor à coisa vai - solta fogo à coisa destrói. Fim de domingo é segunda feira começando; fim de sexta feira é sábado começando. Tudo bem. Concordo que é absurdo acreditar que as coisas sempre existiram e os apocalipses são simples renovações, fim de uma era e começo de outra – que o tempo é circular, destruição e renovação caminham lado a lado; mas esse trem de tirar coelho de cartola (sem que haja coelho ou cortola), pra mim é safadeza... Entre “Fiat lux”, que tudo vem do nada, e o tambor e fogo de Shiva - que nunca existe nada, eu to com a Shiva... Só questão de gosto - entre absurdos, escolhe-se o que mais nos ensurdece. Shiva é o reset do Universo...
October 28 Aforismo 01October 14 Big Bang de proveta
Marcos Vinícius– 3 de outubro de 2008
São Tomás de Aquino, em sua Súmula contra os gentios afirma categoricamente que as verdades da razão natural não contradizem as verdades da fé cristã. Segundo o teólogo, “Deus não pode infundir no homem opiniões ou uma fé que vão contra os dados do conhecimento adquirido pela razão”; mas essa afirmação, pautada no princípio de autoridade, que recorre aos textos de São Paulo, na Epístola aos romanos, e a interpretação agostiniana da Gênese, está longe de resolver o diálogo ontológico e histórico estabelecido entre a ciência e a fé, que refere-se diretamente a estrutura do homem enquanto ser dilacerado pela imanência de seu corpo, onde habita a transcendência de seus sentimentos e reflexões. Kafka apresenta bem essa situação de dilaceramento em um de seus aforismos:
Ele é um cidadão da terra, livre e seguro, pois está ligado a uma corrente suficientemente longa para fazer com que todas as áreas lhe sejam acessíveis sem restrições e, no entanto, longa apenas na medida em que nada pode forçá-lo a ir além dos confins da terra. Ao mesmo tempo, porém, ele é um livre e seguro cidadão do céu, ao qual de modo semelhante também está ligado por uma corrente calculada. Se deseja descer à terra, é sufocado pela corrente celeste presa ao seu pescoço, como uma coleira; se deseja elevar-se ao céu, é sufocado pela corrente terrena. E, não obstante, tem ele todas as possibilidades e assim o sente; na verdade, ele se recusa até a explicar todo o conjunto como um erro no acorrentamento original. (Franz Kafka)
Aristóteles, diz que o desejo de conhecer nasce do espanto do homem em relação ao mundo, dessa intuição avassaladora que algo ultrapassa infinitamente nossa individualidade. E por essa necessidade tipicamente humana de apreender esse infinito, e encontrar a causa do movimento das coisas, os homens criaram deuses, cachaça, fórmulas matemáticas, obras de arte, livros de mil e seiscentas páginas, e religiões de todo tipo. A princípio, os homens contentaram-se em contemplar a realidade, sua beleza e dignidade. No ocidente, a expressão maior dessa estrutura de manejo da realidade, está na Grécia, com os primeiros filósofos, àqueles que convencionalmente chamamos de pré-socráticos. Esses pensadores viveram imersos na angústia da percepção intuitiva do Absoluto, e na incapacidade de pronunciar um discurso lógico que refletisse exatamente aquilo que os devorava. A esse respeito diz Nietzsche, ao comentar os fragmentos de Tales de Mileto:
O que é o verso para o poeta, aqui é para o filósofo o pensar dialético: é deste que ele lança mão para fixar-se em seu enfeitiçamento, para petrificá-lo. E assim como, para o dramaturgo, palavra e verso são apenas o balbucio em uma língua estrangeira, para dizer nela o que viveu e contemplou e que, diretamente, só pode anunciar pelos gestos e pela música, assim a expressão daquela intuição filosófica profunda pela dialética e pela reflexão científica é, decerto, por um lado, o único meio de comunicar o contemplado, mas um meio raquítico, no fundo uma transposição metafórica, totalmente infiel, em uma esfera e língua diferentes. Assim contemplou Tales a unidade de tudo o que é: e quando quis comunicar-se, falou da água!(Nietzsche)
Essa impossibilidade de lidar com o Absoluto obriga muitos pensadores em várias culturas, a adotar uma via negativa de relação com o todo. O místico é justamente aquele que não afirma positivamente algo sobre o Absoluto, mas aproxima-se dele mostrando aquilo que Ele não é, pois reconhece a própria pequinês diante do Universo, e os limites impostos por nossa finitude. Assim diz o poeta Rumi, “O que quer que pensem de nós/ em nada parecerá ao que somos” ou ainda, “Silêncio!/ És feito de pensamento, afeto e paixão/ O que resta é nada/além de carne e ossos”.
Rumi reconhece o limite do discurso racional e se participamos do divino é por meio da intuição sensível, pelo amor ao Absoluto: “Prisioneiros não somos/ do tempo nem do espaço/nem mesmo da terra que pisamos. / No amor fomos gerados, /No amor nascemos.”
O pensador Iluminista Kant, advertiu que a razão não pode lidar com o Eterno, e que apenas possuímos uma representação finita da realidade, imposta pela estrutura própria do pensamento, mas jamais alcançaremos à realidade enquanto tal. A razão não pode penetrar no Absoluto. Mas ao que parece, a advertência desse pensador não afetou os homens de Ciência.
O desejo (o eterno insatisfeito) de apreender a realidade através da razão é um libertino desvairado que se confunde com a própria noção de humanidade. Isso pode ser muito bem ilustrado pela representação da tradição religiosa e mitológica: Adão e Eva não se deram por satisfeitos com o Paraíso, Psique não se contentou em amar Eros sem lhe ver o rosto, apesar de todas as advertências do deus a mortal... Em ambos os casos, as personagens sentem-se tragadas à dimensão humana estrutural do transcender, dessa forma, têm a necessidade de repelir a inércia das coisas que já possuem e conhecem.
O homem de razão é o desejo de conhecer e dominar a natureza. Como um jovem adolescente obcecado pela paixão, é capaz de subjugar qualquer obstáculo a fim de desposar sua amada. E não lhe basta contempla-la, meio que à distância, não para quieto em sua cadeira no teatro da vida, não consegue apenas contemplar o espetáculo; é necessário possuir, tocar, despir a realidade integralmente, como o amante despoja sua amada das vestes na penumbra do quarto. Mas ao contrário da mulher de carne macia, perfumada e de unhas pintadas, que muitas vezes mostra-se por vontade própria, a realidade nunca se apresenta toda nua; há sempre uma outra veste submersa, àquela veste jogada ao pé da cama.
Eis, portanto, o espetáculo da ciência: um bando de homens de jaleco branco, trancafiados no bordel da razão, eternamente fadados a apreciar um striptease que nunca se completa. Catam tal qual mendigos os véus que a realidade lhes fornece, discutem entre si sobre os detalhes da roupa, sorvem-lhe o perfume, alisam a textura do tecido, alguns chegam até a vesti-la para imitar os passos da dançarina, enquanto outros, de prancheta na mão - observam, criam hipóteses, refutam e argumentam, pronunciam conclusões eloqüentes; mas de repente, um deles lhes adverte que o show continua - e no palco, a garota misteriosa ainda está vestida - dança e ri com cinismo.
Esse grandioso experimento da atualidade, que sonda as origens do Universo, é só mais uma tentativa frustrada de despir a realidade completamente. E mesmo que suas descobertas possam propiciar avanços tecnológicos significativos, em diversas áreas da ciência, não revelará nada além de um simulacro sobre o outro simulacro. Ah, se um matuto das nossas bandas topasse com um desses pesquisadores...
O mineirinho, sistemático e desconfiado ouviria quieto e atentamente as frases cheias de Relatividade e Cosmologia costurar o monólogo do sabido cientista. E depois que o motorista de jaleco branco, que debréa, engata, acelera e freia partículas subatômicas, entre outros nobres e obscuros rituais, terminasse sua extravagante palestra, o mineirinho - que tinha pressa, porque tinha de tratar das criação – soltaria um trago de seu fiel paierinho, antes de dizer:
- Rá... O buraco é bem mais pra baixo, seu Dôtor!
Não podemos negar, no entanto, que Fé e Razão, apesar de seguirem caminhos aparentemente distintos, partem do mesmo lugar, da necessidade do homem relacionar-se com o Absoluto, enquanto instrumento de amparo que permite ao indivíduo lidar com os desafios da vida concreta e cotidiana, de maneira mais segura. Se ao longo do percurso atritam e distancia-se é única e exclusivamente pelo dogmatismo dos soldados entrincheirados de ambos os lados, advogando para si a posse do verdadeiro saber.
E talvez, no pequeno fragmento desse evangelho apócrifo, atribuído a Maria Madalena, em que ela relata a conversa que teve com Cristo após a ressurreição, esteja uma abertura que poderia, não resolver a questão - é evidente, mas pelo menos nos fazer refletir um pouco a respeito: “Eu (Maria Madalena) lhe disse: 'Mestre, aquele que tem uma visão vê com a alma ou como espírito?' Jesus respondeu e disse: ‘Não vê nem com a alma nem com o espírito, mas com a consciência, que está entre ambos - assim é que tem a visão.”
A palavra alma aqui deve ser interpretada no sentido de sentimento, de fé. Alma, etimologicamente é aquilo que anima o corpo, e possui a mesma raiz que a palavra animal. Portanto, alma pode ser interpretado como instinto, intuição, paixão, fé.
O termo espírito etimologicamente liga-se ao verbo “soprar”, “respirar”, que nos remete a algo mais etéreo, mais abstrato, como intelecto, raciocínio e inteligência.
Desta forma, seguindo na nossa interpretação, podemos extrair desse fragmento que nem a intuição proporcionada pela fé, e nem o intelecto – isolados entre si - podem proporcionar o “ver”. Diz Jesus: “Não vê nem com a alma nem com o espírito, mas com a consciência, que está entre ambos”.
Esta palavra, consciência, é constituída de um sufixo, ciência, que não se confunde com as disciplinas científicas; na sua origem ciência refere-se à espisteme que quer dizer Verdade, conhecimento verdadeiro que é diferente de doxa, opinião ou conhecimento vulgar. Ao sufixo ciência é acrescida o prefixo, com, que quer dizer, junto a. Portanto, consciência significa “junto à Verdade”, “estar na Verdade”, “ser junto à Verdade”.
Maria Madalena só viu Jesus, porque estava junto à Verdade; não foi apenas por sua fé, nem por sua inteligência. Mas por permanecer num estado paradoxal e limítrofe onde fé e razão confundem-se e ao mesmo tempo distinguem-se.
Afirmando que ciência e fé dialogam - e que partem de uma mesma necessidade humana - extraímos necessariamente, a noção de que compartilham o modo de expressão, o meio de comunicação, que se entendem (não no sentido de concordarem, mas no sentido de se comunicarem) e anseiam a mesma finalidade – apaziguar os demônios internos do homem concreto, e fortalecer o indivíduo na árdua tarefa da conquista da liberdade e da prática da tolerância. E se por ventura a hiper-especialização desenfreada das ciências em campos particulares - fragmentação do saber científico - tem desviado o verdadeiro caminho da ciência do comprometimento para neutralidade; e que a ortodoxia das instituições religiosas não tem cedido às questões impostas pela contemporaneidade, como capitalismo de mercado e a globalização e suas mazelas - não podemos dizer que há de fato um diálogo entre ciência e fé.
Contudo, não se trata de efetuar uma síntese teórica, ou atingir um meio-termo epistemológico; mas de uma conscientização: entender esse estar junto à Verdade como um movimento perpétuo a - abertura a possibilidade da Verdade, assim podemos falar de diálogo, caso contrário, não passa de mera disputa teórica, ou de apropriação do modismo “Holístico”.
Tanto ciência como fé objetivam apenas melhorar a vida das pessoas comuns, pelo menos era essa a idéia, se não for para isso, ambas se tornam obsoletas. No Evangelho de Lucas encontramos uma passagem valiosa, que da na nossa perspectiva de interpretação, fornece uma possibilidade singular:
“ Muito povo acompanhava Jesus. Voltando-se, disse-lhes: ‘Se alguém vem a mim, e não odeia seu pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos, suas irmãs, até a sua própria vida, não pode ser meu discípulo’ ”. (Lucas 14, 25-26)
Jesus é à Verdade encarnada, e só poderia ser discípulo da Verdade aquele que abandonasse os interesses pessoais e a vaidade pessoal, entregando-se enquanto indivíduo solitário a conquista da liberdade e da responsabilidade por si mesmo: eis o maior de todos os deveres – a cruz que temos que carregar.
“Amei o senhor o teu Deus acima de todas as coisas e teu próximo como a ti mesmo”, disse Jesus.
Tanto ciência quanto a fé, abrem a possibilidade de melhoramento do indivíduo concreto, através do ajuntar-se à Verdade – “Amei o senhor o teu Deus (Absoluto) acima de todas as coisas”. O apostulado dessa mesma Verdade é, portanto assumir a liberdade e a responsabilidade enquanto indivíduos perante nós mesmo, que não deve ser entendida no sentido de egoísmo ou individualismo, mas justamente no sentido de que nos fala Sartre:
Escolher ser isto ou aquilo é afirmar, concomitantemente, o valor do que estamos escolhendo, pois não podemos nunca escolher o mal; o que escolhemos é sempre o bem e nada pode ser bom para nós sem o ser para todos. (...) Portanto, a nossa responsabilidade é muito maior do que poderíamos supor, pois ela engaja a humanidade inteira. Sou, desse modo, responsável por mim mesmo e por todos e crio determinada imagem do homem por mim mesmo escolhido; por outras palavras: escolhendo-me, escolho o homem. (Sartre)
Ao dizer que somos responsáveis, não apenas por nos mesmos, mas pelo homem, Sartre que dizer exatamente o que Kant disse anos antes - que ao realizarmos uma escolha devemos pensar: “E se todos agissem como eu? Se todos fossem indiferentes?” Ora, isso não é outra coisa senão o “amar o próximo como a ti mesmo”.
Os homens da fé e da ciência deveriam antes de ligar-se a debates acadêmicos, refletir sobre essas questões. E nesse sentindo que o matuto, em toda a sua simplicidade diz:
- Rá... O buraco é bem mais pra baixo, seu Dôtor!
Aliás, o pessoal sempre encena a morte e paixão de Cristo, com vestes, leituras e procissões (tem gente que nem come carne); porque não deixar os cientistas encenarem o Natal do Universo?
September 29 O dever de ser livre.
“Muito povo acompanhava Jesus. Voltando-se, disse-lhes: ‘Se alguém vem a mim, e não odeia seu pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos, suas irmãs, até a sua própria vida, não pode ser meu discípulo’ ”. Lucas 14: 25-26
O voto é um dever. Bom, quando eu estava na escola, lembro que as professoras sempre passavam dever pra gente. Isso era um meio de exercitar o conteúdo aprendido na sala de aula. Eu sempre fiz meu dever sozinho, porque era muita desonestidade pedir para mãe ou para o irmão mais velho fazer as tarefas da gente.
Nem todo mundo é assim. Tem sempre aqueles que deixam as tarefas que são suas, nas mãos dos outros. Porque tem medo de encarar a responsabilidade ou preguiça de pensar por si mesmo - realmente não é uma coisa muito fácil pensar por si mesmo. Também têm aqueles que apesar de fazerem as tarefas de casa, não fazem no sentido de apreender; mas para passar de ano, para ganhar nota, se a professora passa um dever que não terá um visto em vermelho, ou que acrescentará alguns pontos na média final, não fazem. Outros passam a fazer as tarefas só quando estão ameaçados de reprovação, estão precisando desesperadamente de nota... Mas os piores de todos, são aqueles que fazem tudo direitinho, simplesmente pra garantir o status de aluno dedicado, de geniozinho da sala.
Exercer um dever para obter resultados, é a pior forma de prostituição, seja por notas ou pelo desespero da reprovação. Mas os piores de todos são os que enganam a si mesmos pela vaidade de manterem a fachada de eternos vencedores. Ai daquele que cumpre seu dever por interesse...
Jesus foi a Verdade encarnada, e só poderia seguir a Verdade aquele que abandonasse os interesses pessoais e a vaidade pessoal, entregando-se enquanto indivíduo solitário a conquista da liberdade e da responsabilidade por si mesmo: eis o maior de todos os deveres – a cruz que temos que carregar.
Quem realiza um dever por interesse, seja qual for à natureza desse dever, é um mentiroso, mascarado, um covarde que tem medo de encarar a responsabilidade de ser livre, é o mesmo que grita no meio da multidão, contagiado pelo anonimato da massa: “Soltem Barrabás!!!”.
O verdadeiro sentido do voto é o exercício da liberdade do indivíduo perante sua comunidade, é o maior dever do cidadão. Aqueles que deixam a radicalidade desse sentido ser deturpada por interesses pessoais, por medo de coerção externa (se eu não votar nele perco meu emprego), e pela vaidade de estarem sempre vencendo (não voto em fulano porque vou perder meu voto), não podem ser chamados de cidadãos: não passam de crianças preguiçosas, malandras, desesperadas ou egocêntricas. Não acham que é hora de crescer crianças? Para terminar, lembro a célebre frase de Voltarie, defensor da democracia e da liberdade:"Posso não concordar com uma só palavra sua, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-la”.
Marcos Vinícius - 29 de setembro de 2008 Agradeço a sua visita!
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